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Manual da Demissão

  • Foto do escritor: Silvia Maria Menanteau
    Silvia Maria Menanteau
  • 24 de jan.
  • 3 min de leitura

Não se trata de um livro que ensina líderes a demitirem colaboradores de uma forma humanizada. Nada disso. É um livro sobre os demitidos, e até então, eu nunca tinha lido nada parecido.  Fala mais das dores de quem foi excluído do que das de quem excluiu.   


Os fantasmas trazidos no livro da Julia, me fizeram lembrar dos meus. Pude olhar para as cicatrizes e entregar para cada uma o devido tratamento: curativo, gargalhada, limpeza ou esquecimento. 


Vi retratada uma cena parecida com a que vivi em mil novecentos e noventa, definida pela autora como demissão inusitada: “O que a mim soa mais bizarro, porém é que os patrões continuem demitindo seus funcionários com selvageria, ou como se dirigissem um filme de terror. Como no caso de uma firma que noticiou o encerramento de suas atividades em um jornal de grande circulação, que acabou sendo o veículo pelo qual os funcionários souberam de suas demissões.” 


No meu caso, não li o anúncio em um jornal de grande circulação, mas assisti no sofá de minha casa a notícia, domingo à noite em um canal de televisão. A notificação chegou por telegrama no começo da semana. 


Posso falar de outros filmes não tão aterrorizantes como o primeiro, mas com outras doses de originalidade: quando a pessoa que me substituiria já estava contratada e trabalhando em outro prédio, a que o chefe deixou de gostar de mim, e a que terminaram com o time depois que me recontrataram e eu fui demitida pela segunda vez. Fatos que aconteceram há muito tempo, mas tenho notícias de que ainda hoje o terror não foi aniquilado totalmente.  


Ler sobre o sentimento de rejeição me relembrou dos meus, quando recebia uma bronca dos meus pais ou de uma discussão com um parceiro amado.  Algumas cicatrizes quase somem, mas não deixam de marcar a pele. Nem que seja um bocadinho. 


A confirmação de que uma rotina demora para sair do corpo, o toque do despertador, o almoço e as fofocas intermináveis, tudo que me trazia a sensação de uma vida organizada também aparecem como fatos que sou capaz de reconhecer em mim. 


Encontrei até explicação para a chamada “hora das bruxas” que aparece de vez em quando, mas sempre em torno das 17h quando ainda me pergunto se fui produtiva no dia. 


A salvação é descrita de uma maneira que fez sentido para mim. Retomar à vida, ficar com o aprendizado, soltar o que não presta e encarar a vantagem que cada situação nova apresenta. Sentir-me merecedora de coisas boas, até o momento em que não preciso mais me esforçar muito para lembrar! 


A coisa não é fácil para nenhuma das partes. Boa comunicação, honestidade e análise de fatos, com avaliação de comportamentos e não de identidade e conversas anteriores facilitam o evento.  


Aprendi que contratos não são eternos, que o meu melhor pode não ser suficiente e que continuarei a ser. Um ser! O livro confirma isso, no tempo necessário. 


“No futuro, quem tiver a cura para o torcicolo e para a exoneração decente de trabalhadores terá uma mina de ouro nas mãos.”, profetiza Julia. 


Será que chegamos no futuro? 


Este livro foi indicado pelo Clube de leitura 60+ da Biblioteca do Parque Villa Lobos no Alto de Pinheiros em São Paulo capital.

Para maiores informações acesse: https://bvl.org.br/


 
 
 

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