O que acontece com os desejos depois dos 70 anos?
- Silvia Maria Menanteau

- 8 de mar.
- 2 min de leitura

Essa pode ser a pergunta que quase nunca fazemos quando pensamos nas mulheres da nossa família.
A literatura tem uma resposta bonita para essa pergunta. E eu a encontrei no romance “E se eu morrer amanhã?”, da escritora portuguesa Filipa Fonseca Silva.
Estamos acostumados a ver mulheres maduras retratadas pela literatura — e pela própria família — a partir de suas faltas: solidão, fragilidade, saudade do que passou.
Mas e se olhássemos para elas de outro lugar?
Helena, a protagonista do romance, é uma força da natureza. Viúva, perto dos oitenta anos, decide viver com intensidade tudo aquilo que ainda cabe dentro de um presente bem vivido. Enquanto a família imagina que sua vida gira em torno de xícaras de chá e encontros tranquilos com amigas, Helena constrói silenciosamente outra narrativa para si.
Um incêndio real acaba provocando outro — simbólico — na mente dos familiares, quando descobrem que a matriarca leva uma vida cheia de escolhas próprias, pouco preocupada com as fórmulas que costumam dizer onde uma mulher da sua idade deveria estar. Como alguém pode ainda desejar tanto a vida aos oitenta?
Vamos ouvir Helena:
"O passado estava escrito nas pedras e não podia ser mudado. O futuro era algo com que, na sua idade, não podia contar. Só tinha o presente. Um presente onde não cabiam lamúrias e onde podia ser quem quisesse."
Talvez seja disso que o livro realmente fala: prazer como resistência. Resistência ao adiamento constante da vida. Aos muitos “depois eu passo”, “amanhã eu ligo”, “um dia eu vou”. Frases que dizem muito sobre como acreditamos — quase ingenuamente — que a vida é infinita.
Durante muito tempo, o prazer também foi um assunto quase proibido entre mulheres de uma mesma família. Muitas de nós tivemos a sorte de encontrar parceiros pacientes e amorosos. Mas nem todas.
A falta de conversa sobre intimidade, desejo e cuidado mútuo criou silêncios que atravessaram gerações. Talvez por isso livros assim sejam tão importantes. Eles criam pontes.
Sugiro que você dê este livro de presente para sua mãe. Para sua avó. Ou leia você mesma — para depois conversar com sua filha ou seu filho.
Em tempos de muita informação e pouco conhecimento, abrir espaço para essas conversas também é uma forma de cuidado com o mundo. A literatura tem esse poder raro: ela aproxima o que muitas vezes a vida cotidiana mantém distante.
E talvez seja isso que Helena nos lembre, com humor e coragem: a vida não termina quando o mundo acha que deveria terminar.
Ela termina quando paramos de vivê-la.
📚 Agora quero saber de você:
Qual livro já fez você repensar a forma de viver o presente ou de olhar para alguém da sua família?
Se tiver uma indicação, deixe nos comentários. Boas histórias merecem circular.
Escrevo sobre as delicadas experiências de ser humano. Literatura, relações e aquilo que sentimos – mas nem sempre sabemos nomear.



Comentários