O que a literatura pode nos ensinar sobre as dores invisíveis do cotidiano?
- Silvia Maria Menanteau

- 26 de fev.
- 2 min de leitura
Recentemente li Olhos d’Água, de Conceição Evaristo, e encontrei um daqueles livros que não apenas contam histórias — eles nos atravessam.
Logo nas primeiras páginas, a autora escreve:
“E quando, após longos dias de viagem para chegar à minha terra, pude contemplar extasiada os olhos de minha mãe, sabem o que vi? Vi só lágrimas e lágrimas. Entretanto, ela sorria feliz. [...] Minha mãe trazia, serenamente em si, águas correntezas. [...] Hoje, quando já alcancei a cor dos olhos de minha mãe, tento descobrir a cor dos olhos de minha filha.”
E entendi que não seria uma leitura confortável — seria uma leitura necessária.
Olhos d'Água é feito de histórias curtas que revelam vidas muitas vezes invisíveis: mães, filhas, avós, amantes, homens e mulheres marcados por racismo estrutural, pobreza, violência urbana, memória e ancestralidade.
A própria autora criou uma palavra para definir sua escrita: escrevivência — a literatura que nasce da vida vivida. Uma escrita construída a partir das experiências pessoais e coletivas do povo negro brasileiro.
Ana Davenga foi o conto que mais me marcou:
“Na favela, os companheiros de Davenga choravam a morte do chefe e de Ana, que morrera ali na cama [...], protegendo com as mãos um sonho de vida que ela trazia na barriga.”
Chorei com os companheiros de Ana pelas vidas que ficam à margem das grandes tragédias. Parentes e amigos — movidos pelo amor — mesmo quando a realidade parece não oferecer este espaço.
Mas o livro não é apenas dor. Há também força, ancestralidade e esperança:
“Ayoluwa, alegria do nosso povo, continua entre nós [...] enquanto um olho chora, o outro espia o tempo procurando a solução.”
Terminei o livro com a sensação de ter vivido um choque de realidade em forma de palavras e um aprendizado profundo.
Sempre acreditei que os livros certos chegam nas horas certas. Às vezes um livro ajuda a entender o que estamos vivendo, em outras é companhia de travessia em momentos difíceis e até pode nomear o que sentimos.
Gosto de indicar livros que ajudam a pensar a vida real — emoções, relações, perdas, mudanças e recomeços.
Se você estiver vivendo algum desafio neste momento, me conte pelo e-mail silvia@menanteau.com.br
Posso tentar indicar um livro que converse com você.




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